Há gráficos consensualmente maus. Desses não falaremos. Falaremos dos outros, dos que são feitos todos os dias em todas as empresas, que têm uma estética e uma forma de representar a informação reconhecidas como válidas. São esses os gráficos que ajudam a tomar decisões e que aumentam ou reduzem o retorno do investimento feito nos dados.
Este exemplarmente mau gráfico foi retirado do Relatório e Contas de uma respeitável instituição (a propósito, folhear alguns Relatório e Contas que estão disponíveis no site da CMVM dá-nos uma ideia muito aproximada da literacia gráfica das empresas portuguesas).
Vejamos, sem muita elaboração, os seus principais defeitos:![]()
- Tamanho: O gráfico ocupa 73cm³ numa página A4 para mostrar 5 valores; em geral, não há motivo para gastar tanto espaço com tão poucos dados;
- Cor: O azul foi seleccionado porque faz parte da imagem da organização, mas uma interpretação peculiar do conceito de imagem levou a definir uma mancha pesada em fundo e um conjunto de tons para os valores que dificilmente identificamos;
- Tipo de gráfico: os sectogramas (“gráficos circulares”, “tartes”, “queijos”) devem em geral ser evitados, porque ocupam muito espaço para a informação de veiculam, porque não permitem organizar facilmente a os dados (é necessário algum tempo para ordenar a série por relevância de cada ponto, por exemplo), e porque a nossa percepção gere mal o cálculo os ângulos, necessário à avaliação de cada fatia, entre outras razões;
- 3D decorativo: Gráficos com 3D decorativo (quando o 3D não acrescenta informação) deformam o gráfico, especialmente gráficos circulares, fazendo com qua a partes “da frente” pareça maior qua a “de trás”; além disso, é mais difícil avaliar a dimensão de cada fatia numa elípse que numa circunferência;
- Fatias separadas: Tal como o 3D decorativo, esta opção amplia os problemas dos gráficos circulares; a utilização simultânea de ambos os efeitos torna o gráfico ilegível;
- Autonomia: o gráfico não é autónomo, isto é, necessitamos de recorrer ao texto para determinar as datas a que se referem os valores;
- Indicação dos valores: um gráfico serve para detectar padrões e tendências, não para indicar valores (para isso temos as tabelas); é admissível indicar valores em casos pontuais (valores extremos, alteração de circunstâncias…), mas indicar todos os valores apenas acrescenta ruído; a prática, aplicada em pelo menos dois Relatório e Contas de 2004, de colocar o valor do ano anterior entre parêntesis mostra a iliteracia de quem o fez e a sua incapacidade de perceber para que servem os gráficos;
Resumindo, este gráfico sofre de um mal que atinge muitos outros: a tentativa captar o interesse da audiência através da introdução de efeitos especiais (numa apresentação de Powerpoint, cada fatia faria a sua aparição voando para o seu lugar). São gráficos que se preocupam mais consigo próprios que com os dados que é suposto representarem, o que, já o notaram vários autores, é sinal seguro de um mau gráfico.
Uma representação alternativa dos mesmos dados:![]()
- Inclui ambos os anos;
- Mostra o peso relativo de cada componente e ordena-as por relevância;
- O leitor não tem uma legenda de 5 entradas mas apenas de 2, facilmente identificáveis;
- Tudo o que não é essencial para a representação dos dados é eliminado ou reduzido ao mínimo indispensável;
- Em função do layout da página, poderia ser alterada proporção do gráfico para permitir a utilização de duas linhas para o descritivo dos valores.
Em conclusão, uma representação dos dados que, não desprezando critérios estéticos, enfatize a facilidade de transmissão da mensagem e o trabalho interpretativo do leitor, cria valor para os dados (aumenta o retorno do investimento), o que se reflete na qualidade da decisão.
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