Anatomia de um mau gráfico

by admin on October 19, 2006

Há gráficos consensualmente maus. Desses não falaremos. Falaremos dos outros, dos que são feitos todos os dias em todas as empresas, que têm uma estética e uma forma de representar a informação reconhecidas como válidas. São esses os gráficos que ajudam a tomar decisões e que aumentam ou reduzem o retorno do investimento feito nos dados.

Este exemplarmente mau gráfico foi retirado do Relatório e Contas de uma respeitável instituição (a propósito, folhear alguns Relatório e Contas que estão disponíveis no site da CMVM dá-nos uma ideia muito aproximada da literacia gráfica das empresas portuguesas).

Vejamos, sem muita elaboração, os seus principais defeitos:grafico circular 3D

  • Tamanho: O gráfico ocupa 73cm³ numa página A4 para mostrar 5 valores; em geral, não há motivo para gastar tanto espaço com tão poucos dados;
  • Cor: O azul foi seleccionado porque faz parte da imagem da organização, mas uma interpretação peculiar do conceito de imagem levou a definir uma mancha pesada em fundo e um conjunto de tons para os valores que dificilmente identificamos;
  • Tipo de gráfico: os sectogramas (“gráficos circulares”, “tartes”, “queijos”) devem em geral ser evitados, porque ocupam muito espaço para a informação de veiculam, porque não permitem organizar facilmente a os dados (é necessário algum tempo para ordenar a série por relevância de cada ponto, por exemplo), e porque a nossa percepção gere mal o cálculo os ângulos, necessário à avaliação de cada fatia, entre outras razões;
  • 3D decorativo: Gráficos com 3D decorativo (quando o 3D não acrescenta informação) deformam o gráfico, especialmente gráficos circulares, fazendo com qua a partes “da frente” pareça maior qua a “de trás”; além disso, é mais difícil avaliar a dimensão de cada fatia numa elípse que numa circunferência;
  • Fatias separadas: Tal como o 3D decorativo, esta opção amplia os problemas dos gráficos circulares; a utilização simultânea de ambos os efeitos torna o gráfico ilegível;
  • Autonomia: o gráfico não é autónomo, isto é, necessitamos de recorrer ao texto para determinar as datas a que se referem os valores;
  • Indicação dos valores: um gráfico serve para detectar padrões e tendências, não para indicar valores (para isso temos as tabelas); é admissível indicar valores em casos pontuais (valores extremos, alteração de circunstâncias…), mas indicar todos os valores apenas acrescenta ruído; a prática, aplicada em pelo menos dois Relatório e Contas de 2004, de colocar o valor do ano anterior entre parêntesis mostra a iliteracia de quem o fez e a sua incapacidade de perceber para que servem os gráficos;

Resumindo, este gráfico sofre de um mal que atinge muitos outros: a tentativa captar o interesse da audiência através da introdução de efeitos especiais (numa apresentação de Powerpoint, cada fatia faria a sua aparição voando para o seu lugar). São gráficos que se preocupam mais consigo próprios que com os dados que é suposto representarem, o que, já o notaram vários autores, é sinal seguro de um mau gráfico.

Uma representação alternativa dos mesmos dados:

  • Inclui ambos os anos;
  • Mostra o peso relativo de cada componente e ordena-as por relevância;
  • O leitor não tem uma legenda de 5 entradas mas apenas de 2, facilmente identificáveis;
  • Tudo o que não é essencial para a representação dos dados é eliminado ou reduzido ao mínimo indispensável;
  • Em função do layout da página, poderia ser alterada proporção do gráfico para permitir a utilização de duas linhas para o descritivo dos valores.

Em conclusão, uma representação dos dados que, não desprezando critérios estéticos, enfatize a facilidade de transmissão da mensagem e o trabalho interpretativo do leitor, cria valor para os dados (aumenta o retorno do investimento), o que se reflete na qualidade da decisão.

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