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As cegonhas atacam!

by admin on December 17, 2006

Quando o efeito é mais importante que os dados, quando a construção da realidade se sobrepõe à realidade, quando a ignorância permite todos os disparates, resultam gráficos como o do Sol deste fim de semana (páginas 4-5 do caderno Confidencial).

Duas coisas são particularmente infelizes neste gráfico. Ao dobrar o eixo para o fazer acompanhar a imagem da folha de papel contínuo, dá uma ideia distorcida da evolução das séries, aproximando o pico de 2004 do pico de 1998, quando o de 2004 está a um nível muito inferior. É necessário um trabalho cognitivo de ajustamento mental da imagem para que possamos fazer uma leitura não enviesada.

Um segundo erro é mais complexo e leva a tirar conclusões espúrias como a que dá título ao gráfico (“Bolsa antecipa ciclos económicos”). São utilizados dois eixos, um para o PSI-20 (vermelho) e outro para o PIB (verde). Foi ajustada a escala de um dos eixos de forma a que, tanto quanto possível, houvesse uma sobreposição das séries, pelo menos numa parte do período. A isto chama-se batota. Qualquer sobreposição dos dados com base no ajustamento manual de duas escalas distintas é pura coincidência e não permite inferir qualquer relação entre as séries. Se ninguém no Sol sabe disto, é um problema que deveria ser resolvido. (Repare-se que não interessa aqui se a bolsa antecipa ou não os ciclos económicos; o que interessa é que isso não pode ser demonstrado por um gráfico destes, mesmo que houvesse uma coinciência perfeita.)

Num dos últimos posts recordava o exemplo da correlação entre o número de cegonhas e a taxa de natalidade para sublinhar que correlação não significa causalidade. Neste caso, há uma relação inventada que sugere conclusões irrelevantes.

(Alguns exemplos de erros associados à utilização abusiva de dois eixos podem ser encontrados aqui, aqui e aqui.)

Há uma regra muito simples mas aparentemente difícil de entender nos media: não se deixam designers gráficos à solta com dados, em particular se o histórico não nos tranquiliza, mas devo confessar que a esperança de encontrar estes disparates é a única coisa que ainda me leva a comprar o Sol, semana após semana…

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