Gráficos no Orçamento de Estado: pequenas mentiras visuais

by admin on November 8, 2006

Uma análise superficial dos gráficos apresentados no relatório do Orçamento de Estado para 2007 mostra diversos problemas de leitura que não ajudam à compreensão dos dados. São em geral pobres, inconsistentes (demasiada gente a contribuir com a suas suas idiossincrasias pessoais) e insistem em excesso no processamento cognitivo (ou seja, é necessário recorrer às legendas e outras notas textuais para compreender o seu modo de leitura). No primeiro exemplo, o que vemos e o que lemos é contraditório, o que também não ajuda.

Neste exemplo (pág. 60 do PDF) não se percebe bem o que significa (temos de procurar no texto, porque não tem título), há excesso de ruído no interior (todo o tracejado é inútil), a legenda não precisa de ser emoldurada, todos aqueles milhões todos na escala só ocupam espaço, e não se percebe imediatamente se as séries são cumulativas.

O gráfico chama a atenção para a percentagem da série “cumulative collections” no total da série “base case”. Visualmente somos levados a concluir que há um crescimento percentual contínuo. No entanto, uma leitura mais atenta observa que no segundo período há um decréscimo para 50%, e temos de lutar ajustar mentalmente a contradição entre esse decréscimo e o aumento de dimensão da barra. Ao querer misturar perspectivas de análise o gráfico envia mensagens contraditórias.

Uma prática comum nas publicações da área de economia e finanças é a utilização de dois eixos com escalas distintas e associados a séries distintas. Não consigo perceber essa prática, que me parece mais maléfica que benéfica. Tal como no gráfico acima, o leitor tem de lutar contra o que os seus sentidos lhe dizem. Se tem de ir à procura no texto do gráfico do manual de utilização (que variáveis estão ligadas a que eixo), que sentido tem sequer fazer o gráfico? Pura perda de tempo.

Estes dois gráficos à esquerda parecem-me particularmente estúpidos (pág. 83). Não temos uma, nem duas, nem três, mas quatro (!) escalas. O título encoraja-nos a comparar a evolução após duas recessões, mas como podemos comparar coisas que estão em diferentes escalas? Não faz sentido. Alguém me explica (devagarinho)?

O último exemplo em apreciação (pág.148) é apenas tonto. A nossa percepção da evolução temporal traduz-se visualmente num movimento da esquerda para a direita, pelo que qualquer outra disposição tem de ser muito bem justificada. Não é o caso. Também não entendo por que motivo não se aplicou uma estimativa para o ano de 2006 (como em vários outros)ou não se sinalizou de alguma forma gráfica que o valor deste ano é apenas de seis meses.

Há estudos que mostram que os Relatório e Contas das empresas se têm vindo a tornar um instrumento de marketing, que isso é acompanhado por um aumento do número médio de gráficos por relatório e que esses gráficos são escolhidos a dedo para veicular uma imagem favorável da organização, mesmo que com recurso a técnicas de manipulação (de escalas, de extensão do período temporal, etc.). Suponho que o OE irá no futuro mesmo sentido. Uma análise mais detalhada da informação e do modo como será representada graficamente é, por isso, uma obrigação.

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