Uma análise superficial dos gráficos apresentados no relatório do Orçamento de Estado para 2007 mostra diversos problemas de leitura que não ajudam à compreensão dos dados. São em geral pobres, inconsistentes (demasiada gente a contribuir com a suas suas idiossincrasias pessoais) e insistem em excesso no processamento cognitivo (ou seja, é necessário recorrer às legendas e outras notas textuais para compreender o seu modo de leitura). No primeiro exemplo, o que vemos e o que lemos é contraditório, o que também não ajuda.
Neste exemplo (pág. 60 do PDF) não se percebe bem o que significa (temos de procurar no texto, porque não tem título), há excesso de ruído no interior (todo o tracejado é inútil), a legenda não precisa de ser emoldurada, todos aqueles milhões todos na escala só ocupam espaço, e não se percebe imediatamente se as séries são cumulativas.
O gráfico chama a atenção para a percentagem da série “cumulative collections” no total da série “base case”. Visualmente somos levados a concluir que há um crescimento percentual contínuo. No entanto, uma leitura mais atenta observa que no segundo período há um decréscimo para 50%, e temos de lutar ajustar mentalmente a contradição entre esse decréscimo e o aumento de dimensão da barra. Ao querer misturar perspectivas de análise o gráfico envia mensagens contraditórias.
Uma prática comum nas publicações da área de economia e finanças é a utilização de dois eixos com escalas distintas e associados a séries distintas. Não consigo perceber essa prática, que me parece mais maléfica que benéfica. Tal como no gráfico acima, o leitor tem de lutar contra o que os seus sentidos lhe dizem. Se tem de ir à procura no texto do gráfico do manual de utilização (que variáveis estão ligadas a que eixo), que sentido tem sequer fazer o gráfico? Pura perda de tempo.
Estes dois gráficos à esquerda parecem-me particularmente estúpidos (pág. 83). Não temos uma, nem duas, nem três, mas quatro (!) escalas. O título encoraja-nos a comparar a evolução após duas recessões, mas como podemos comparar coisas que estão em diferentes escalas? Não faz sentido. Alguém me explica (devagarinho)?
O último exemplo em apreciação (pág.148) é apenas tonto. A nossa percepção da evolução temporal traduz-se visualmente num movimento da esquerda para a direita, pelo que qualquer outra disposição tem de ser muito bem justificada. Não é o caso. Também não entendo por que motivo não se aplicou uma estimativa para o ano de 2006 (como em vários outros)ou não se sinalizou de alguma forma gráfica que o valor deste ano é apenas de seis meses.
Há estudos que mostram que os Relatório e Contas das empresas se têm vindo a tornar um instrumento de marketing, que isso é acompanhado por um aumento do número médio de gráficos por relatório e que esses gráficos são escolhidos a dedo para veicular uma imagem favorável da organização, mesmo que com recurso a técnicas de manipulação (de escalas, de extensão do período temporal, etc.). Suponho que o OE irá no futuro mesmo sentido. Uma análise mais detalhada da informação e do modo como será representada graficamente é, por isso, uma obrigação.
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