Gráficos nos Relatório e Contas: Jerónimo Martins

by admin on May 2, 2007

relatório e contas, análise gráfica, erros gráficos, gráficos circulares

Os Relatório e Contas das empresas cotadas são fonte inesgotável de maus exemplos de representação gráfica. Nos próximos dias irei discutir alguns deles.

A imagem ao lado foi retirada do R&C de 2006 da Jerónimo Martins (relatório em PDF). Supostamente compara a estrutura de vendas em 2005 com 2006.

Esta imagem é um catálogo de erros. Em certos casos, o designer sacrifica o rigor à estética. Neste caso, parecem ter sido ambos sacrificados…

Vejamos.

  • Embora haja pessoas que defendem que o ano mais recente deve estar mais próximo do início de uma tabela, à esquerda, isto é contra-intuitivo. A nossa percepção do modo como a passagem do tempo deve ser representada é moldada ao movimento esquerda-direita. O gráfico de vendas de 2006 não deve, por isso, aparecer antes do gráfico de vendas de 2005.
  • Consegue descobrir diferenças entre os anos? Eu não consigo, os gráficos parecem-me iguais. No entanto, registaram-se algumas diferenças com algum significado, como mostram as percentagens. Mas se são as percentagens que nos dão uma medida das variações ocorridas, por que motivo foram feitos os gráficos? Nunca devem ser feitas comparações utilizando dois gráficos circulares, em particular nestas circunstâncias, dado que a nossa percepção tem dificuldade em perceber pequenas variações de ângulos quando colocados lado a lado.
  • O efeito 3D é inútil e conduz a erros de avaliação devido ao efeito de perspectiva. Em geral, todo o gráfico deve manter-se no mesmo plano.
  • O efeito de explosão tem como objectivo realçar um pormenor. Se todas as fatias do gráfico são explodidas, que realce se obtém?
  • Uma forma de minimizar os defeitos dos gráficos circulares é ordenar os valores por ordem decrescente. Não foi o caso.
  • A cor do “Retalho em Portugal” parece quebrar o padrão de cor aplicado aos outros valores, como se fossemos convidados a comparar este com o total dos outros. Mas a lógica não é clara, nem é claro o fio que os (eventualmente) une. Uma variação de design deve ter sempre uma razão fácil de justificar e compreender. Também isso falta.

Terei esquecido algum?

Em resumo: esta representação gráfica consegue nada representar. Olho para estes gráficos como para um telefone avariado, siderado com a sua absoluta inutilidade.

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CCz May 4, 2007 at 9:28 am

Ao ler este seu postal, e perante as tontices que enumerou e que IMHO também subscrevo, dou comigo a pensar: Na minha formação universitária, nunca ninguém me chamou a atenção para boas práticas na escolha, desenho e apresentação de gráficos. Dispomos de poderosas ferramentas de elaboração de gráficos, e no entanto… qual a percentagem que conhece, por exemplo, as ideias de Tufte? Será que 20 anos depois, este tipo de matéria já faz parte do curriculo de cursos universitários, ou de escolas secundárias?

Carlos Vieira Reis May 4, 2007 at 11:29 am

Uma vez mais, notável.
Atrevo-me a acrescentar: porquê representar de diferentes maneiras a categoria Cash & Carry? Só vem acrescentar mais ruído ao ruído…

jorge.camoes May 4, 2007 at 2:16 pm

CCz: há duas coisas que este blog pretende demonstrar: a) que uma má representação gráfica reduz o retorno do investimento feito na informação, isto é, as empresas estão a perder dinheiro porque não retiram dos dados tudo o que eles podem dar; b) que, ao contrário da percepção geral, saber usar um instrumento não torna ninguém perito na matéria para a qual está a ser utilizado. Saber fazer gráficos em Excel não é o mesmo de saber fazer gráficos.

O mestrado que fiz em gestão de informação, bem como outros equivalentes, deveria ter pelo menos uma cadeira de opção sobre isto, mas não tem. Também é verdade que não teria ninguém (em Portugal) para a leccionar…

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