A discussão das vantagens dos gráficos sobre tabelas e vice versa é recorrente e tem longos anos. Vou dissecar o interessante comentário de Vasco Rodrigues no post anterior para tentar mostrar como as duas formas de representação não se excluem mas complementam-se. Assim:
Não me leve a mal. O gráfico é bonito mas, excepto por razões decorativas, a tabela continua a ser preferível.
Não é minha intenção fazer gráficos bonitos. O conceito estético de um gráfico deve sempre servir a sua capacidade de comunicação. Há estudos que mostram uma relação entre a percepção da estética de um interface de utilizador e a percepção da sua usabilidade. Será que a avaliação de um gráfico como “bonito” favorece a sua facilidade de comunicação? Acredito que podemos dar esse passo. Em contrapartida, são razões puramente decorativas e gratuitas que levam aos gráficos “3D” que infestam as apresentações em qualquer organização e que, não apenas não trazem qualquer valor acrescentado, como limitam de forma severa a nossa possibilidade de compreensão da informação.
A maioria das pessoas que são capazes de ler um gráfico com 300 dados, como este, também são capazes de ler uma tabela numérica.
O que está implícito no comentário é que é mais difícil ler o gráfico que ler a tabela, o que me parece contestável. O gráfico reproduz exactamente a tabela, essa é uma das características básicas e vantagens deste desenho. Talvez seja enviesamento meu, mas julgo que o gráfico é muito simples de ler e a sua complexidade não aumentaria de forma significativa com o número de dados.
E a tabela é muito mais informativa e muito mais facilmente manipulável.
O gráfico está ligado, na folha de cálculo que criei, à tabela de base. Qualquer manipulação da tabela tem reflexos automáticos no gráfico, pelo que a facilidade de manipulação é equivalente. (Discuto abaixo a parte ”informativa”.)
Alguém, neste gráfico, consegue perceber a importância relativa, entre países, das despesas com educação?
Jacques Bertin escreveu isto há 40 anos:
“It is the internal mobility of the image which characterizes modern graphics. A graphic is no longer ‘drawn’ once and for all; it is ‘constructed’ and reconstructed (manipulated) until all the relationships which lie within it have been perceived.”
Como é dito no post, esta é um dos momentos de análise possível. Muitos outros poderiam ser tentados dentro do espírito da citação de Bertin. No caso da imagem apresentada, todos os gráficos partilham a mesma escala, porque se pretendia mostrar o peso de cada categoria. Poderia ser sido seguido o modelo de escalas individuais, que facilitaria a análise das variações nas categorias menos representativas. Numa análise completa essa opção não deveria faltar, mas não era esse o propósito do exercício. A manipulação sistemática dos dados através da representação gráfica não é ainda algo que esteja no nosso mindset quando analisamos dados. Deveria estar, mas as ferramentas também não ajudam muito (mas veja como Bertin trabalhava…)
Para quê perder tempo a fazer o gráfico?
Um pouco de teoria da percepção: no momento de percepção, há passo, chamado de “preatentivo” em que há um processamento automático e paralelo que retira da imagem as características essenciais. Um bom gráfico deve esforçar-se por dar o máximo de informação nesse passo, evitando o processamento cognitivo, que é muito mais lento, sequencial e que depende da nossa pesquisa consciente.
Uma tabela, pela sua natureza, pouco pode aproveitar desse processamento inicial. O estudo sequencial e lento é a norma. O problema é que para compreender algumas regras e algumas excepções nos dados temos de memorizar valores a comparar, o que é difícil pela baixa capacidade da memória de curto prazo (experimente, quando está a tentar memorizar um número de telefone, distrair-se com outra coisa…).
A oposição entre tabelas e gráficos não faz sentido. As tabelas servem para encontrar valores exactos, e para tarefas baseadas nesse pressuposto. Um dos exemplos que julgo mais claro é a tabela de horários de transportes. Quero uma indicação rigorosa da hora a que o comboio passa na minha estação, não um gráfico que me dê uma aproximação. Um gráfico não me dá valores exactos porque a percepção é sobretudo a percepção da variação, e os gráficos são excelentes a mostrá-la. Os gráficos servem para compreender relações de dados num contexto de variabilidade.
Na análise de informação temos várias ferramentas. Temos tabelas, temos gráficos, temos a estatística. Nenhuma é, à partida, “mais informativa”. É a partir da correcta escolha e adequada manipulação de cada uma que podemos compreender o mundo a partir dos dados com que trabalhamos.
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