A propósito do recomendável programa de António Barreto que hoje estreou na RTP (Portugal, Um Retrato Social) fui rever um outro projecto organizado pelo autor, A Situação Social em Portugal 1960-1999, que serve, aliás, de base ao programa televisivo. O meu inconfessável objectivo era encontrar esqueletos no armário, sob a forma de maus exemplos de gráficos. Desse ponto de vista, a colheita revelou-se vintage.
Escolhi apenas um gráfico, porque trata de um tema abordado no programa de hoje, a extraordinária evolução da mortalidade infantil ao longo dos últimos 40 anos em Portugal. O gráfico publicado no livro é este cinzento da esquerda (não tive oportunidade de melhorar a fotografia). Nunca tinha visto uma evolução representada desta forma, nem penso que deva ser modelo para o futuro. A utilização de marcadores de diferentes formas para identificar os anos ou a ordenação alfabética dos países são apenas alguns dos problemas.
Enfim.
Tentei tirar por aproximação os valores de base e fiz um gráfico alternativo. É um simples gráfico de linhas, que expressa em todo o seu esplendor a queda da mortalidade infantil em Portugal e o modo como se aproximou dos padrões europeus.
Poderia ter seleccionado outras alternativas que permitissem uma correcta identificação de todos os países representados. Não o fiz por um bom motivo: redução de detalhe desnecessário. O que quero mostrar é a evolução de Portugal, tendo como referência o contexto europeu. Poderei ter interesse nos países com os quais em geral nos comparamos, a Espanha e a Grécia. Todos os restantes países devem manter-se indiferenciados porque não são relevantes para a análise.
Corolário: devemos saber, para cada questão, onde é traçada a fronteira entre informação relevante e informação “interessante” mas sem valor acrescentado. Se é útil como contexto, deverá ser colocada em segundo plano. Se é apenas interessante, elimina-se sem piedade.
(PS.: Não é um preciosismo académico: o último período é de apenas 7 anos, e não de 10, como os anteriores; nestes casos, a escala tem de reflectir essa diferença, o que acontece no gráfico.)
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Excelente proposta, apesar de achar que o gráfico original não é assim tão despropositado pois permite uma melhor comparação dos diferentes países.
Como foi feito este gráfico? Como se suavizaram as linhas no Excel?
O GapMinder, agora do Google, permite umas explorações deste mesmo indicador.
http://tools.google.com/gapminder
Obrigado!
Pedro
Julgo que pelo facto de o gráfico original pretender comparar os diferentes países não quer dizer que o faça bem. Imagine que num país e num ano a mortalidade subia num ano, o que significa que os marcadores seriam trocados. Provavelmente não daria por isso, ou então tem de assumir que tal pode acontecer, com custos cognitivos e potencial de erro elevados. Há outras formas simples de representar esta informação garantindo a comparação entre todos os países. Não o fiz porque, como indico no post, muitas vezes temos uma atitude demasiado passiva quanto à selecção dos dados. É como a tralha que acumulamos em casa, achando que um dia vai ser útil ou teremos tempo para lhe dedicarmos atenção…
O gráfico que fiz é um gráfico de dispersão, para poder resolver a questão de o último período ser mais pequeno. A suavização das linha é uma opção de formato de Excel. Para a versão inglesa do Excel, é “Format Data Series /Patterns / Smoothed lines.